Criação de animais selvagens em cativeiro



Perante a diminuição continuada das populações de animais selvagens em estado natural no nosso país, assistimos ao crescimento do negócio de criação de animais em cativeiro para fins cinegéticos, isto é, cujo destino é serem alvo dos caçadores. Perdizes, faisões, codornizes, patos bravos e também coelhos bravos e até javalis e veados, são criados em jaulas e cercados para depois serem soltos e mortos pelos caçadores.


Tratando-se de animais selvagens, todas as etapas do processo de exploração e manuseamento são motivos causadores de ansiedade e de pânico permanente, para além das situações comprometedoras de bem-estar e da integridade física e mental a que estão sujeitos os animais explorados em qualquer criação intensiva.


Quando libertados nos chamados “repovoamentos” e “largadas”, estes animais são alvo fácil dos tiros dos caçadores, que iniciam a caçada apenas umas horas depois de os animais serem libertados num ambiente que lhes é totalmente desconhecido. Os poucos que escapam à morte por tiro dificilmente sobreviverão, por incapacidade de adaptação à vida selvagem, uma vez que não foram ensinados pelos progenitores a reconhecer predadores, a procurar alimento ou a proteger-se dos diversos perigos.


​Por outro lado, a falta de fiscalização das entidades competentes traduz-se em frequentes situações de hibridação (com animais de origem doméstica), condição sanitária deficiente e consequente aumento da já reduzidíssima capacidade de sobrevivência.


A criação de animais selvagens em cativeiro é uma realidade perturbadora, que demonstra bem como a caça dos nossos dias é uma prática distanciada das regras da natureza, ultrapassada, do ponto de vista das exigências éticas contemporâneas e que desconsidera as necessidades e capacidades próprias dos animais selvagens, as quais só se realizam, até por definição, no ambiente que lhes é natural.


A título ilustrativo, disponibilizamos abaixo um pequeno documentário da ASPAS - Associação para a Proteção de Animais Silvestres, uma organização de defesa animal francesa que denunciou há uns meses as condições degradantes e a vida miserável das aves criadas em cativeiro para fins cinegéticos, após filmagens em várias explorações. O filme expõe as condições deploráveis em que os animais são criados para este fim, nas diversas etapas destes verdadeiros aviários da caça.


​As aves exploradas para reprodução vivem em jaulas minúsculas com chão de rede, os animais juvenis são mantidos em pavilhões sem luz para que não se agridam mutuamente devido à falta de espaço e, na etapa final - os chamados espaços de treino de vôo - animais morrem por colisão ou presos nas redes e outros são sujeitos a agressões ou mantidos com anilhas anti-picagem, óculos anti-picagem e cobre-bicos.